Um paciente de 65 anos apresenta-se com febre de 38.5°C há quatro semanas, sem um diagnóstico claro após investigação inicial. Quais são os três critérios clássicos que definem a Febre de Origem Indeterminada (FOI) e quais as três categorias etiológicas mais comuns para essa síndrome?
Os critérios clássicos para FOI são:
Temperatura > 38.3°C (101°F) em várias ocasiões.
Duração > 3 semanas.
Ausência de diagnóstico após uma semana de investigação hospitalar apropriada (ou 3 consultas ambulatoriais).
As três categorias etiológicas mais comuns são:
Infecções (ex: abscessos ocultos, tuberculose, endocardite).
Neoplasias (principalmente linfomas e leucemias).
Doenças do tecido conjuntivo (doenças reumatológicas autoimunes).
Na avaliação de um paciente com febre prolongada, a presença de sintomas constitucionais como perda de peso significativa e sudorese noturna intensa deve elevar a suspeita para quais duas classes de doenças, mencionadas no seu material? Qual o mediador inflamatório central responsável por esses sintomas?
As duas classes de doenças a serem fortemente consideradas são a Tuberculose (TB) e as doenças linfoproliferativas (ex: Linfoma de Hodgkin). O principal mediador inflamatório responsável pelos sintomas constitucionais é o fator de necrose tumoral-alfa (TNF-α), uma citocina liberada por macrófagos ativados (na TB) ou por células neoplásicas (como as células de Reed-Sternberg no Linfoma de Hodgkin).
Um paciente relata um padrão de febre que consistentemente atinge seu pico no final da tarde (febre vespertina). Essa característica, investigada no padrão da febre, é classicamente associada a qual doença infecciosa de alta prevalência global?
A febre vespertina é um padrão clássico associado à Tuberculose (TB). Acredita-se que este padrão rítmico esteja relacionado a variações circadianas na resposta imune do hospedeiro, incluindo a liberação de citocinas como IL-1, IL-6 e TNF-α.
Um homem de 32 anos se apresenta com febre (38.8°C), sudorese noturna profusa e perda de 8 kg nos últimos dois meses. Ele descreve um padrão de febre que dura de 5 a 7 dias, seguido por um período afebril de uma semana, que se repete. Ele também menciona dor em um linfonodo no pescoço após consumir uma cerveja no fim de semana. Ao exame, você palpa um linfonodo supraclavicular esquerdo de 2 cm, firme, indolor e de consistência elástica. A radiografia de tórax revela um alargamento do mediastino. Qual é o diagnóstico mais provável?
Diagnóstico: Linfoma de Hodgkin (provavelmente o subtipo Esclerose Nodular, o mais comum em adultos jovens).
Fisiopatologia / Achados Clássicos: Neoplasia linfoide de células B que se origina nos linfonodos. O padrão de febre cíclica é classicamente conhecido como febre de Pel-Ebstein. A tríade de sintomas B (febre, sudorese noturna, perda de peso >10% em 6 meses) é um marcador de atividade sistêmica da doença. A dor no linfonodo induzida pelo álcool é um achado raro, mas altamente específico. A biópsia do linfonodo revela as células patognomônicas de Reed-Sternberg, que são grandes células B anormais com citoplasma abundante e múltiplos núcleos ou um núcleo bilobulado (aparência de “olhos de coruja”).
Manejo / Tratamento: O diagnóstico é confirmado com a biópsia excisional do linfonodo. O estadiamento é feito com PET-CT. O tratamento padrão envolve quimioterapia (o regime clássico é o ABVD: Adriamicina, Bleomicina, Vinblastina, Dacarbazina), frequentemente combinada com radioterapia, dependendo do estágio e dos fatores de risco.
Uma mulher de 68 anos apresenta febre baixa vespertina, fadiga e dor nos ombros e quadris há seis semanas, com rigidez matinal significativa que dura mais de uma hora. Ela também relata uma nova cefaleia latejante na região temporal direita e dor na mandíbula ao mastigar alimentos sólidos. Ao exame, há dor à palpação sobre a artéria temporal e a velocidade de hemossedimentação (VHS) é de 105 mm/h. Qual é a condição subjacente mais provável e qual a complicação mais temida?
Diagnóstico: Arterite de Células Gigantes (Arterite Temporal).
Fisiopatologia / Achados Clássicos: É uma vasculite granulomatosa de grandes vasos, que afeta ramos da artéria carótida externa. Os sintomas de dor e rigidez em cinturas escapular e pélvica são característicos da Polimialgia Reumática, uma condição fortemente associada. A cefaleia e a claudicação mandibular resultam da isquemia causada pela inflamação vascular. A complicação mais temida é a perda visual súbita e irreversível devido à neuropatia óptica isquêmica anterior, causada pela oclusão de ramos da artéria oftálmica.
Manejo / Tratamento: Esta é uma emergência médica. Deve-se iniciar imediatamente altas doses de corticosteroides sistêmicos (ex: prednisona 1 mg/kg/dia), mesmo antes da confirmação diagnóstica, para prevenir a cegueira. A confirmação é feita com a biópsia da artéria temporal, que mostra infiltrado inflamatório com células gigantes multinucleadas.
Um homem de 45 anos, agricultor, se apresenta com febre ondulante, sudorese noturna com odor característico de “feno molhado”, artralgia e mialgia há mais de um mês. Ele relata consumir regularmente queijo fresco e leite não pasteurizado de uma fazenda local. Ao exame, ele está febril, com hepatoesplenomegalia e dor à palpação da coluna lombar. Hemoculturas estão em andamento. Qual é o agente etiológico mais provável?
Diagnóstico: Brucelose.
Fisiopatologia / Achados Clássicos: Zoonose causada por um cocobacilo Gram-negativo intracelular facultativo, a Brucella spp. (ex: B. melitensis de cabras/ovelhas, B. abortus de gado). A transmissão ocorre pelo consumo de laticínios não pasteurizados ou contato direto com animais infectados. A bactéria sobrevive dentro dos macrófagos, disseminando-se pelo sistema reticuloendotelial, o que explica a hepatoesplenomegalia e a formação de granulomas não caseosos. O envolvimento osteoarticular, especialmente a sacroileíte e a espondilodiscite, é a complicação focal mais comum.
Manejo / Tratamento: O diagnóstico é confirmado por hemoculturas (que podem levar semanas para positivar) ou sorologia. O tratamento de primeira linha é a combinação de doxiciclina por 6 semanas com um aminoglicosídeo (ex: estreptomicina ou gentamicina) por 2-3 semanas ou rifampicina por 6 semanas. A terapia combinada é essencial para prevenir recaídas.
Uma mulher de 35 anos com lúpus eritematoso sistêmico mal controlado apresenta febre diária elevada (picos de 40°C), dor de garganta, um rash evanescente de cor salmão no tronco e nos membros que se intensifica com a febre, e artralgias. Os exames laboratoriais revelam leucocitose neutrofílica, VHS e PCR marcadamente elevadas, e um nível de ferritina sérica superior a 5.000 ng/mL. A investigação para infecções e outras malignidades foi negativa. Qual é o diagnóstico mais provável?
Diagnóstico: Doença de Still do Adulto.
Fisiopatologia / Achados Clássicos: É uma doença autoinflamatória sistêmica rara, caracterizada pela ativação desregulada do sistema imune inato, com superprodução de citocinas pró-inflamatórias como IL-1, IL-6 e IL-18. A tríade clássica de sintomas inclui: febre alta diária em picos, artralgia/artrite e o rash evanescente cor de salmão. A ferritina extremamente elevada (hiperferritinemia) é um marcador diagnóstico chave, refletindo a ativação macrofágica sistêmica. A complicação mais grave é a síndrome de ativação macrofágica (SAM), uma forma de linfo-histiocitose hemofagocítica.
Manejo / Tratamento: O tratamento inicial geralmente envolve AINEs e corticosteroides. Para casos refratários ou dependentes de corticoides, são usados agentes biológicos que bloqueiam citocinas-chave, como os inibidores de IL-1 (anakinra) ou de IL-6 (tocilizumabe)
Um homem de 55 anos, portador de HIV com contagem de CD4 de 45 células/mm³, apresenta febre, sudorese noturna, diarreia aquosa e dor abdominal há várias semanas. Ele também se queixa de perda de peso significativa. O exame físico revela palidez e hepatoesplenomegalia. Os exames laboratoriais mostram pancitopenia e elevação da fosfatase alcalina. A hemocultura em meio específico revela a presença de bacilos álcool-ácido resistentes. Qual é a infecção oportunista mais provável?
Diagnóstico: Infecção disseminada pelo Complexo Mycobacterium avium (MAC).
Fisiopatologia / Achados Clássicos: O MAC é uma micobactéria ambiental onipresente. Em pacientes com imunossupressão grave (tipicamente CD4 < 50 células/mm³), a ingestão do organismo pode levar à doença disseminada. A bactéria se replica dentro dos macrófagos, infiltrando múltiplos órgãos do sistema reticuloendotelial, como medula óssea, fígado, baço e linfonodos intestinais, causando os sintomas constitucionais, hepatoesplenomegalia, diarreia crônica e pancitopenia. A elevação da fosfatase alcalina reflete o envolvimento hepático ou ósseo.
Manejo / Tratamento: O tratamento requer uma terapia combinada para prevenir resistência, classicamente com um macrolídeo (claritromicina ou azitromicina) associado ao etambutol. A rifabutina pode ser adicionada como um terceiro agente. A profilaxia primária com azitromicina é recomendada para pacientes com CD4 < 50. O tratamento deve ser mantido até que o paciente apresente reconstituição imune com a terapia antirretroviral (TARV).
Um homem de 26 anos, previamente hígido, apresenta-se com uma história de três semanas de febre diária (até 38.5°C), dor de garganta, mialgia intensa e um exantema maculopapular difuso que acomete tronco, membros e, inclusive, palmas e solas. Ele relata ter múltiplos parceiros sexuais e uso inconsistente de preservativos. Ao exame físico, nota-se linfadenomegalia generalizada, com linfonodos cervicais, axilares e inguinais discretamente dolorosos e móveis. Qual é a principal suspeita diagnóstica e qual o teste inicial de escolha?
Diagnóstico: Síndrome Retroviral Aguda (Infecção Aguda pelo HIV).
Fisiopatologia / Achados Clássicos: Esta é a manifestação da infecção primária pelo HIV, ocorrendo 2-4 semanas após a exposição. Apresenta-se como uma síndrome “mononucleose-like” devido à intensa resposta imune à alta viremia. A linfadenomegalia generalizada reflete a replicação viral nos tecidos linfoides. O rash que acomete palmas e solas é um achado importante, embora também possa ocorrer em outras condições como a sífilis secundária (um importante diagnóstico diferencial).
Manejo / Tratamento: O teste inicial de escolha é o imunoensaio de 4ª geração (antígeno/anticorpo), que detecta tanto o anticorpo anti-HIV quanto o antígeno p24, permitindo o diagnóstico na “janela imunológica” antes da soroconversão completa. Em caso de resultado positivo, a confirmação é feita com um teste de diferenciação de anticorpos HIV-1/HIV-2. O manejo consiste na iniciação imediata da terapia antirretroviral (TARV) para suprimir a carga viral, preservar a função imune e reduzir a transmissão.
Um paciente de 45 anos, em tratamento para epilepsia com início recente de fenitoína há seis semanas, é admitido por febre persistente (39°C), mal-estar e o surgimento de um exantema morbiliforme que começou na face e se espalhou para o tronco. O exame físico revela edema facial e linfadenomegalia generalizada. Os exames laboratoriais mostram leucocitose com eosinofilia acentuada e elevação de ALT e AST. Qual é a síndrome mais provável?
Diagnóstico: Síndrome de DRESS (Drug Reaction with Eosinophilia and Systemic Symptoms).
Fisiopatologia / Achados Clássicos: É uma reação de hipersensibilidade tardia grave a medicamentos, com uma latência típica de 2 a 8 semanas após o início do fármaco. Fármacos classicamente associados incluem anticonvulsivantes aromáticos (fenitoína, carbamazepina, lamotrigina), alopurinol e sulfonamidas. A fisiopatologia envolve reativação de herpesvírus (HHV-6) e uma resposta imune exacerbada. A tríade clássica é febre, exantema e envolvimento de órgãos internos (fígado é o mais comum, causando hepatite). A eosinofilia e a linfadenomegalia são achados marcantes.
Manejo / Tratamento: O passo mais crucial e imediato é a suspensão do agente causal (fenitoína). O tratamento é majoritariamente de suporte. Em casos de envolvimento visceral grave, corticosteroides sistêmicos são a base do tratamento.
Um homem de 35 anos, com histórico de uso de drogas intravenosas, apresenta-se com febre alta e calafrios há três semanas, associados a tosse e dor torácica pleurítica. No exame físico, ele está febril (39.2°C) e taquicárdico. A ausculta cardíaca revela um sopro holossistólico no bordo esternal esquerdo baixo, que se intensifica com a inspiração profunda. A radiografia de tórax mostra múltiplos infiltrados nodulares periféricos, alguns com cavitação. Qual o diagnóstico e o agente etiológico mais provável?
Diagnóstico: Endocardite Infecciosa Aguda da Valva Tricúspide com êmbolos sépticos pulmonares.
Fisiopatologia / Achados Clássicos: O uso de drogas IV predispõe à bacteremia por flora cutânea. O agente etiológico mais comum nesse cenário é o Staphylococcus aureus. A valva tricúspide é a mais frequentemente acometida em usuários de drogas IV. O sopro que se intensifica com a inspiração (Sinal de Carvallo) é patognomônico de insuficiência tricúspide. Os fragmentos de vegetação da valva direita embolizam para a circulação pulmonar, causando os êmbolos sépticos vistos na radiografia.
Manejo / Tratamento: A abordagem inicial inclui a coleta de múltiplas hemoculturas seguida pelo início de antibioticoterapia empírica intravenosa (ex: vancomicina para cobrir MRSA). Um ecocardiograma é essencial para confirmar a presença de vegetações. O tratamento é prolongado (4-6 semanas) e a cirurgia pode ser indicada em casos de falha do tratamento clínico ou embolização recorrente.
Um jovem de 24 anos retorna de uma viagem de mochila pela Índia e Nepal e, duas semanas depois, desenvolve febre que aumenta progressivamente a cada dia, cefaleia e dor abdominal difusa. Na segunda semana de doença, ele observa o aparecimento de pequenas máculas rosadas em seu tronco. Ao ser examinado, sua temperatura é de 39.8°C, mas sua frequência cardíaca é de apenas 85 bpm. O baço é palpável. Qual a suspeita diagnóstica?
Diagnóstico: Febre Entérica (Febre Tifoide).
Fisiopatologia / Achados Clássicos: Infecção sistêmica causada pela bactéria Salmonella enterica sorotipo Typhi (ou Paratyphi), adquirida por ingestão de água ou alimentos contaminados. Os achados clássicos incluem a febre em escada (aumento progressivo), a dissociação pulso-temperatura (ou bradicardia relativa, conhecida como sinal de Faget) e as roséolas tíficas (rash maculopapular evanescente no tronco). A bactéria invade as placas de Peyer no íleo terminal, podendo causar complicações como hemorragia ou perfuração intestinal.
Manejo / Tratamento: O padrão-ouro para o diagnóstico são as hemoculturas, que têm maior sensibilidade nas primeiras semanas da doença. O tratamento de escolha são os antibióticos, como fluoroquinolonas (ex: ciprofloxacino) ou cefalosporinas de terceira geração (ex: ceftriaxona), dependendo dos padrões de resistência locais
Uma criança de 10 anos apresenta febre baixa e mal-estar há três semanas. Há um mês, foi arranhada no antebraço por um gato filhote. Ao exame, há um linfonodo axilar esquerdo de 3 cm, móvel e doloroso à palpação, com eritema na pele sobrejacente. Uma pápula eritematosa é notada no local da arranhadura. Qual o agente etiológico mais provável e qual o tratamento para um paciente imunocompetente?
Diagnóstico: Doença da Arranhadura do Gato.
Fisiopatologia / Achados Clássicos: Zoonose causada pela bactéria Gram-negativa Bartonella henselae, transmitida por arranhões ou mordidas de gatos, especialmente filhotes. Caracteriza-se por uma pápula de inoculação no local do contato, seguida semanas depois por uma linfadenopatia regional dolorosa que pode supurar. A febre de origem indeterminada é a apresentação mais comum da doença atípica/sistêmica.
Manejo / Tratamento: Em pacientes imunocompetentes, a doença é geralmente autolimitada. O tratamento é de suporte, com analgésicos e calor local. A aspiração do linfonodo pode ser necessária para alívio da dor. A antibioticoterapia com azitromicina pode acelerar a resolução da linfadenopatia, sendo indicada em casos mais sintomáticos ou em pacientes imunocomprometidos.
Um homem de 65 anos é avaliado por febre de 38.5°C e mal-estar há quatro semanas. Uma investigação inicial de 3 dias no hospital, incluindo hemoculturas seriadas, urocultura, radiografia de tórax e ultrassom abdominal, foi inconclusiva. Ele se queixa de uma nova dor lombar à direita e dificuldade para andar. Ao exame, ele apresenta dor à hiperextensão do quadril direito (sinal do psoas positivo). Os laboratórios mostram leucocitose persistente e VHS elevada. Qual é a suspeita diagnóstica e qual o exame de imagem mais apropriado para confirmar?
Diagnóstico: Abscesso do Psoas.
Fisiopatologia / Achados Clássicos: Um abscesso do psoas é uma coleção purulenta no músculo iliopsoas. Pode ser primário (disseminação hematogênica, comumente por S. aureus) ou secundário (disseminação contígua de uma infecção adjacente, como doença de Crohn, diverticulite ou osteomielite vertebral). A tríade clássica (febre, dor nas costas/flanco e limitação do movimento do quadril) está presente em apenas uma minoria dos pacientes, tornando-o uma causa clássica de FOI. O sinal do psoas positivo é um achado chave no exame físico.
Manejo / Tratamento: O exame de imagem de escolha para confirmar o diagnóstico é a Tomografia Computadorizada (TC) de abdome e pelve com contraste. O tratamento envolve duas abordagens simultâneas: drenagem do abscesso (geralmente percutânea, guiada por imagem) e antibioticoterapia intravenosa de amplo espectro, que será posteriormente ajustada com base na cultura do material drenado.
Uma mulher de 50 anos apresenta-se com febre diária, perda de peso e artralgias há mais de um mês. Sua investigação inicial para FOI foi negativa. Durante a internação, ela sofre um episódio de afasia transitória. Ao exame, a ausculta cardíaca revela um som de baixa frequência no início da diástole, descrito como um “plop tumoral”. Os exames laboratoriais mostram anemia e elevação de marcadores inflamatórios. Qual é o diagnóstico mais provável e como ele causa febre?
Diagnóstico: Mixoma Atrial.
Fisiopatologia / Achados Clássicos: É o tumor cardíaco primário mais comum em adultos, geralmente localizado no átrio esquerdo. Embora benigno histologicamente, pode ser clinicamente “maligno” por três mecanismos: 1) Efeitos sistêmicos/constitucionais: o tumor produz citocinas, notavelmente a Interleucina-6 (IL-6), que causam febre, perda de peso e mialgias. 2) Embolização: fragmentos do tumor friável podem se desprender e causar eventos isquêmicos (ex: AVC, como no caso da afasia). 3) Obstrução valvar: o tumor pode prolapsar através da valva mitral, causando sintomas de insuficiência cardíaca. O “plop tumoral” é o som característico do movimento do tumor.
Manejo / Tratamento: O diagnóstico é confirmado pelo ecocardiograma. O tratamento é a ressecção cirúrgica do tumor, que é curativa e resolve completamente os sintomas constitucionais.
Um homem de 55 anos, que trabalha em um matadouro, desenvolve um quadro de febre alta, calafrios, cefaleia retro-orbitária intensa e mialgia há cinco semanas. Ele também se queixa de tosse seca. A investigação para FOI, incluindo hemoculturas para bactérias comuns, foi negativa. Os exames laboratoriais revelam trombocitopenia e elevação de transaminases (ALT/AST). A radiografia de tórax mostra um infiltrado pneumônico atípico. Qual é a infecção mais provável e como o diagnóstico é confirmado?
Diagnóstico: Febre Q (infecção por Coxiella burnetii).
Fisiopatologia / Achados Clássicos: É uma zoonose causada pela Coxiella burnetii, uma bactéria intracelular obrigatória Gram-negativa. A transmissão ocorre principalmente pela inalação de aerossóis contaminados provenientes de animais de fazenda infectados (gado, ovelhas, cabras), especialmente durante o parto. A apresentação clínica aguda clássica é uma síndrome febril com pneumonia atípica e hepatite anictérica. Como a bactéria não cresce em meios de cultura padrão, as hemoculturas são negativas.
Manejo / Tratamento: O diagnóstico é feito por sorologia, detectando anticorpos IgM e IgG contra os antígenos de fase I e fase II da bactéria. O tratamento de escolha para a febre Q aguda é a doxiciclina. A infecção crônica (ex: endocardite) requer terapia prolongada com doxiciclina e hidroxicloroquina.
Um homem de 60 anos de descendência judaica Ashkenazi apresenta-se com episódios recorrentes de febre alta (40°C) que duram de 1 a 3 dias e se resolvem espontaneamente. Durante os episódios, ele sente uma dor abdominal intensa, simulando um abdome agudo, e dor torácica pleurítica. Entre as crises, que ocorrem a cada poucas semanas, ele é completamente assintomático. A investigação para FOI durante os episódios tem sido repetidamente negativa. Qual a principal suspeita e qual a terapia profilática de escolha?
Diagnóstico: Febre Familiar do Mediterrâneo (FFM).
Fisiopatologia / Achados Clássicos: É a doença autoinflamatória monogênica mais comum, de herança autossômica recessiva, causada por mutações no gene MEFV. Este gene codifica a proteína pirina, que regula a ativação do inflamassoma e a produção de IL-1β. Mutações levam a uma inflamação descontrolada, resultando em ataques de febre e serosite (peritonite, pleurite, sinovite). A complicação mais grave a longo prazo é a amiloidose secundária (AA), que pode levar à insuficiência renal.
Manejo / Tratamento: O diagnóstico é frequentemente clínico e pode ser confirmado por testes genéticos para mutações no gene MEFV. A terapia de primeira linha, que é tanto profilática quanto diagnóstica (a resposta ao tratamento ajuda a confirmar o diagnóstico), é o uso diário de colchicina. A colchicina previne os ataques e, crucialmente, impede o desenvolvimento de amiloidose.
Um paciente de 70 anos em tratamento de um linfoma é internado para quimioterapia. Três semanas após o ciclo, e em uso profilático de múltiplos antibióticos, ele desenvolve febre diária de 38.4°C sem nenhum outro sintoma localizatório. As culturas de sangue, urina e escarro são negativas. O PET-CT não mostra focos de infecção ou progressão da doença. Apesar da antibioticoterapia de amplo espectro, a febre persiste. Ele está hemodinamicamente estável e com boa aparência geral. Qual diagnóstico de exclusão deve ser fortemente considerado?
Diagnóstico: Febre Medicamentosa (Drug Fever).
Fisiopatologia / Achados Clássicos: É uma reação de hipersensibilidade a um medicamento, que pode ocorrer a qualquer momento durante a terapia. Os mecanismos podem envolver a formação de imunecomplexos ou a estimulação direta de citocinas. Quase qualquer fármaco pode causá-la, mas os mais comuns incluem beta-lactâmicos, sulfonamidas, e anticonvulsivantes. O quadro clínico é tipicamente uma febre isolada, sem outros sinais de toxicidade sistêmica grave (diferente da DRESS). Os pacientes geralmente aparentam estar “bem” apesar da febre alta (bradicardia relativa pode estar presente).
Manejo / Tratamento: A febre medicamentosa é um diagnóstico de exclusão. O manejo consiste na suspensão do agente suspeito. A febre tipicamente se resolve em 24 a 72 horas após a descontinuação do medicamento, um fenômeno que é tanto diagnóstico quanto terapêutico.
Um jovem de 19 anos, estudante universitário, se apresenta com uma história de duas semanas de febre diária, fadiga extrema, dor de garganta e mal-estar. Ele se sente tão cansado que não consegue mais frequentar as aulas. Ao exame físico, sua temperatura é de 38.9°C, a orofaringe está hiperemiada com exsudato amigdaliano e petéquias no palato. Na palpação do pescoço, você nota uma proeminente linfadenopatia cervical posterior, bilateral e dolorosa. O baço é palpável 2 cm abaixo do rebordo costal esquerdo. Qual é o diagnóstico mais provável?
Diagnóstico: Mononucleose Infecciosa (causada pelo Vírus Epstein-Barr - EBV).
Fisiopatologia / Achados Clássicos: O EBV (HHV-4) infecta primariamente linfócitos B através do receptor CD21. A resposta imune é mediada por linfócitos T CD8+ citotóxicos contra os linfócitos B infectados, que aparecem no esfregaço de sangue periférico como linfócitos atípicos. A tríade clássica é febre, faringite e linfadenopatia. A linfadenopatia cervical posterior é particularmente característica, em contraste com a adenopatia anterior vista em faringites estreptocócicas. A esplenomegalia ocorre em ~50% dos casos e representa um risco de ruptura esplênica (a principal recomendação é evitar esportes de contato por pelo menos 3-4 semanas).
Manejo / Tratamento: O diagnóstico é geralmente confirmado pelo teste de anticorpos heterófilos (Monospot), que pode ser negativo no início da doença. A sorologia específica para EBV (anti-VCA IgM/IgG) é mais definitiva. O tratamento é de suporte, com hidratação, repouso e analgésicos. O uso de amoxicilina ou ampicilina (se erroneamente diagnosticado como faringite bacteriana) classicamente precipita um rash maculopapular difuso.
Um homem de 45 anos apresenta febre, sinusite crônica refratária a múltiplos cursos de antibióticos e episódios de epistaxe há dois meses. Ele também relata tosse com expectoração hemoptoica. Ao exame, a mucosa nasal está friável e com crostas, e há uma deformidade nasal incipiente (nariz “em sela”). Os exames laboratoriais mostram creatinina de 1.8 mg/dL e o exame de urina revela hematúria dismórfica e cilindros hemáticos. Qual é a principal suspeita diagnóstica?
Diagnóstico: Granulomatose com Poliangiite (anteriormente Wegener).
Fisiopatologia / Achados Clássicos: É uma vasculite de pequenos e médios vasos, necrotizante e granulomatosa. A tríade clássica de acometimento de órgãos inclui: 1) Vias aéreas superiores (sinusite, otite, mastoidite, úlceras nasais, deformidade em sela); 2) Vias aéreas inferiores (nódulos pulmonares que podem cavitar, hemorragia alveolar); e 3) Rins (glomerulonefrite rapidamente progressiva pauci-imune). A febre e os sintomas constitucionais são comuns. O marcador sorológico chave é o anticorpo anticitoplasma de neutrófilos com padrão citoplasmático (c-ANCA), que tem como alvo a proteinase 3 (PR3).
Manejo / Tratamento: O diagnóstico é confirmado pela biópsia do tecido afetado (ex: seio paranasal, pulmão ou rim) mostrando vasculite granulomatosa necrotizante. O tratamento para a doença ativa grave envolve a indução de remissão com corticosteroides em altas doses associados a um imunossupressor potente, como rituximabe ou ciclofosfamida.
Uma mulher de 28 anos, de ascendência turca, é avaliada por febre recorrente e mal-estar há várias semanas. Ao exame da cavidade oral, você observa múltiplas úlceras aftosas, redondas, dolorosas e de fundo amarelado, com halo eritematoso. Ela relata que também apresenta úlceras semelhantes na região genital. O exame ocular revela hiperemia conjuntival e turvação visual no olho esquerdo. Qual síndrome deve ser considerada?
Diagnóstico: Síndrome de Behçet.
Fisiopatologia / Achados Clássicos: É uma vasculite sistêmica de etiologia desconhecida que afeta vasos de todos os tamanhos (artérias e veias). É mais prevalente em populações ao longo da antiga “Rota da Seda” (Mediterrâneo, Oriente Médio e Leste Asiático). As manifestações clínicas clássicas são aftas orais recorrentes (critério obrigatório), úlceras genitais, lesões oculares (uveíte anterior ou posterior, vasculite retiniana) e lesões de pele (eritema nodoso, pseudofoliculite). Um achado característico é o teste de patergia positivo, que é a formação de uma pápula ou pústula estéril 24-48h após uma picada de agulha na pele.
Manejo / Tratamento: O tratamento é direcionado aos órgãos acometidos. Corticoides tópicos são usados para as úlceras. A colchicina é frequentemente usada para prevenir a recorrência das lesões mucocutâneas. Casos com acometimento ocular ou neurológico grave requerem imunossupressores sistêmicos (ex: azatioprina, ciclosporina) e/ou agentes biológicos (inibidores de TNF-α).
Um homem de 40 anos, diabético e em cetoacidose, desenvolve febre alta, dor facial e edema periorbital à direita. Ao inspecionar a cavidade nasal, você nota uma lesão enegrecida e necrótica no corneto médio e no palato duro. Ele também se queixa de diplopia. Qual é a emergência infecciosa mais provável?
Diagnóstico: Mucormicose Rinocerebral.
Fisiopatologia / Achados Clássicos: Infecção fúngica angioinvasiva e fulminante causada por fungos da ordem Mucorales (ex: Rhizopus, Mucor). Ocorre classicamente em pacientes imunocomprometidos, especialmente aqueles com diabetes mellitus (particularmente em cetoacidose) e neutropenia. A cetoacidose e a hiperglicemia prejudicam a função dos neutrófilos e fornecem um ambiente rico em ferro que promove o crescimento fúngico. O fungo invade os vasos sanguíneos, causando trombose e necrose tecidual, o que resulta no clássico escara necrótico preto. A invasão pode se estender rapidamente para os seios cavernosos e o cérebro.
Manejo / Tratamento: Esta é uma emergência cirúrgica e médica. O tratamento requer uma abordagem tripla e agressiva: 1) Debridamento cirúrgico extenso e imediato de todo o tecido necrótico; 2) Terapia antifúngica sistêmica com Anfotericina B lipossomal em altas doses; e 3) Reversão rápida da condição subjacente (ex: controle da cetoacidose diabética).
Uma mulher afro-americana de 32 anos apresenta febre baixa, tosse seca e dispneia progressiva há um mês. A investigação inicial foi inconclusiva. Ao exame físico, você nota nódulos subcutâneos violáceos na pele do nariz e bochechas. O exame ocular com lâmpada de fenda revela sinais de uveíte anterior. A radiografia de tórax mostra linfadenopatia hilar bilateral simétrica. Qual o diagnóstico mais provável?
Diagnóstico: Sarcoidose.
Fisiopatologia / Achados Clássicos: Doença multissistêmica de etiologia desconhecida, caracterizada pela formação de granulomas não caseosos em múltiplos órgãos. O pulmão é o órgão mais acometido, com a linfadenopatia hilar bilateral sendo o achado radiológico clássico. A uveíte é a manifestação ocular mais comum e pode levar à cegueira se não tratada. As lesões cutâneas violáceas na face são chamadas de lúpus pérnio e são patognomônicas. Bioquimicamente, os granulomas produzem a enzima conversora de angiotensina e a 1-alfa-hidroxilase (levando a níveis elevados de ECA e hipercalcemia).
Manejo / Tratamento: O diagnóstico é confirmado por biópsia de um tecido afetado (ex: transbrônquica) mostrando granulomas não caseosos, após exclusão de outras doenças granulomatosas (como tuberculose). Muitos pacientes não necessitam de tratamento. Para aqueles com doença sintomática, pulmonar progressiva, ou acometimento de órgãos nobres (coração, olhos, sistema nervoso), o tratamento de primeira linha são os corticosteroides sistêmicos.
Um homem de 52 anos com histórico de prolapso de valva mitral é avaliado por febres diárias de 38.4°C e sudorese noturna há quatro semanas. Ele relata ter passado por um tratamento de canal dentário há seis semanas. Ao exame físico, além de um novo sopro regurgitativo, você observa múltiplas lesões-chave: pequenas hemorragias lineares sob as unhas, nódulos eritematosos e dolorosos nas polpas digitais e máculas eritematosas, indolores, nas palmas das mãos. Qual é o diagnóstico?
Diagnóstico: Endocardite Infecciosa.
Fisiopatologia / Achados Clássicos: A bacteremia transitória (pós-procedimento dentário) colonizou a valva mitral previamente danificada. Os achados cutâneos são manifestações clássicas de fenômenos embólicos e imunológicos:
Hemorragias em estilhaços (Splinter hemorrhages): Microêmbolos nos capilares do leito ungueal.
Nódulos de Osler: Deposição de imunecomplexos na derme vascular, causando uma vasculite inflamatória dolorosa.
Lesões de Janeway: Êmbolos sépticos nas arteríolas da derme das palmas e plantas, resultando em microabscessos (indolores).
Manejo / Tratamento: O passo inicial mais importante é a coleta de três conjuntos de hemoculturas de locais diferentes antes de iniciar os antibióticos. Um ecocardiograma transesofágico (ETE) é o exame de imagem de escolha para visualizar as vegetações. O tratamento consiste em antibioticoterapia intravenosa prolongada (4-6 semanas), com o esquema guiado pelo patógeno isolado (provavelmente Streptococcus viridans neste cenário).